Aniversário: Igreja Matriz de São Boaventura completa hoje, 89 anos de sua inauguração.

Conheça a história da construção desse templo de fé e patrimônio histórico de Canavieiras.

Por: Oslan Costa Ribeiro*

Muitos moradores da cidade de Canavieiras, ao passarem pela Praça São Boaventura, se deparam com a beleza e imponência dos traços arquitetônicos da igreja matriz, sede da Paróquia de São Boaventura do Poxim. Muitos percalços foram enfrentados para que a igreja fosse concluída e inaugurada no dia 5 de julho de 1932.

Desejada desde o período imperial pelos padres da Freguesia de São Boaventura por causa do estado de abandono da antiga igreja matriz da praça da Bandeira, a construção só saiu do papel em 1912, com a posse do Padre Justino José de Sant’Anna (1878-1958). Padre Sant’Anna tomou para si essa realização, embora tenha enfrentado muita dificuldade para conseguir a adesão da população e da elite local para iniciar a obra.

Foto da antiga igreja matriz de São Boaventura em dia de festa na década de 1910.

Padre Justino apelava e pedia ajuda, espalhando panfletos de conscientização cristã para que aderissem à campanha da construção da nova e necessária igreja matriz. O texto dos panfletos era publicado pelos jornais da cidade em apoio ao padre. Com muita luta, benzeu a pedra fundamental na solenidade de Corpus Christi em 1912, no terreno doado pelo município por resolução aprovada na Câmara de Vereadores e sancionada pelo intendente João de Deus Ramos (1912-1915).

Em seguida começaram a construção dos alicerces, com as pedras doadas, em 1911, pelos moradores do Rio Pardo. Não sabemos o nome do arquiteto que projetou a nova e atual igreja matriz, mas, provavelmente, perto da conclusão das obras, o engenheiro chefe foi o coronel Augusto Peltier. As obras foram interrompidas por diversas vezes, por longos períodos, por falta de dinheiro. Tudo indica que seu projeto original também foi revisto, no intuito de diminuir o tamanho do novo templo para que a obra pudesse ter viabilidade de ser concluída.

Infelizmente, no imaginário local, temos a tendência equivocada de acreditar que o dinheiro dos coronéis do cacau, em Canavieiras, construiu tudo o que temos, inclusive a nova igreja matriz de São Boaventura. Sim, com muito custo, os padres conseguiam algumas sacas da safra cacaueira desses coronéis, como doação para as obras da matriz. Mas, ressaltamos, que era com muito custo, muita insistência, e infelizmente, em troca de barganha política, que amplamente eram divulgadas nas páginas dos jornais da cidade no afã de promoção pessoal.

Pelas fontes jornalísticas pesquisadas, nada foi fácil para os padres nessa empreitada de construção da nova igreja matriz. Comissões de homens e mulheres foram formados para arrecadação de fundos. Havia cofres em alguns pontos do comércio para coleta de ofertas da população, sem falar nas festas religiosas do padroeiro e quermesses. Mas, ainda assim, os valores arrecadados eram logo consumidos pela obra. Verificamos que doações de materiais para a obra foram recebidas, como tijolos, cimentos, cal, pedras e carradas de areia lavada. Tudo doado por cidadãos de médio porte financeiro, da cidade.

Entre 1912 e 1924, o padre Justino fez o que podia para acelerar as obras. Seu desempenho era reconhecido pelos seus paroquianos e pela elite local, que o tinha com muito respeito e devoção, principalmente por ter superado essa provação assumida por ele, ao chegar em Canavieiras em 1912.

Em 1924, a Igreja também reconheceu seus esforços, tanto que o Papa Pio XI, o elegeu Bispo da Igreja, nomeando-o para a nova diocese de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Ele saiu de Canavieiras como Bispo eleito, deixando a nova igreja matriz em pé e toda com telhado. A despedida foi com grande comoção pública, no porto da cidade.

Depois de uma breve paralização e de padres visitantes, assume permanentemente a Paróquia de São Boaventura, em 1925, o Padre Antônio de Siqueira Granja, o popular, Padre Granja.

Padre Granja foi incumbido de terminar as obras de construção da nova matriz, agora, em fase de acabamento. As campanhas continuaram e muitas paralizações nas obras também, por falta de recursos. A velha matriz, já muito desgastada, recebia da Intendência uma demão de cal, antes de iniciar os festejos de São Boaventura a cada ano.

Chegava a década de 1930 e nada de Canavieiras conseguir concluir a nova matriz inacabada, cheia de andaimes, paralisada e sozinha no vasto largo onde fora erguida. Essa cena incomodava o padre, o povo, a elite e a impressa que sempre dava nota cobrando a atitude coletiva para terminar a obra.

Em 1932, a conclusão foi viabilizada depois de maior adesão financeira de alguns nomes da elite política local e também da agilidade da comissão formada para auxiliar Padre Justino e Padre Granja nas obras de construção. Em 5 de julho de 1932, solenemente, ocorreu a procissão de traslado das imagens da antiga igreja matriz, na Praça da Bandeira, para a nova, acompanhada com grande número de fiéis.

Foto da nova igreja matriz na festa de São Boaventura em 1950

A nova igreja matriz foi dedicada a Deus, pelas mãos de Dom Justino José de Sant’Anna, Bispo da diocese de Juiz de Fora. Dom Justino veio de Minas para dedicação da nova matriz, para abençoar os paroquianos de Canavieiras, com Padre Granja o acompanhando no rito de Dedicação, na santa Missa e Te Deum. Hoje, a igreja matriz de São Boaventura completa 89 anos de inauguração. Fizemos aqui memória dos 20 anos de construção (1912-1932) e dos atores envolvidos na realização dessa obra, que continua sendo uma das principais edificações do patrimônio histórico de Canavieiras. Embora tenha passado por inúmeras reformas no interior, que a desfiguraram do projeto original, e uma outra reforma que extirpou uma das portas laterais da sacristia direita, alterando sua parte externa, é um belo exemplar de igrejas do estilo neogótico do início do século XX. Esse estilo era o símbolo da Igreja que se auto afirmava, – pós separação do Estado – buscando na releitura mais leve da arquitetura gótica da idade média, auge do poder da Igreja, mostrar à República do Brasil, a restauração de sua autonomia eclesiástica e institucional sob o comando de um único chefe, o Papa.

* Oslan Costa Ribeiro é mestrando do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG), vinculado à linha II – Cultura, poder e identidades. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7937879658171776. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1742-9669. É de família canavieirense, graduado e especialista em História pela UESC, e pesquisa sobre Canavieiras na área de História há 20 anos, com artigos científicos e capítulos de livros publicados sobre o tema. No segundo semestre de 2021, publicará pela Editora Editus (UESC), seu livro “Religião, transformação, conflitos e festas: a história da freguesia de São Boaventura do Poxim de Canavieiras”.

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