VIVA SÃO BOAVENTURA: 14 de Julho para os Canavieirenses, 15 de Julho para fiéis católicos mundo afora.

Conheça a história do Nosso Seráfico e Padroeiro e o porque do dia 14 para os católicos canavieirenses.

Por: Oslan Costa Ribeiro*

Desde 1970, quando a Igreja publicou o novo missal e o novo calendário romano – calendário de solenidades, festas, memória de Nosso Senhor, Nossa Senhora, dos santos e santas de Deus a serem celebrados pelo orbe católico – sob o selo do Papa São Paulo VI (1963-1978), fruto da reforma litúrgica do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), começava a ser realidade da vida da Igreja no mundo e no Brasil.

A partir do novo calendário romano, a memória de São Boaventura, bispo e doutor da Igreja, celebrado desde o missal de São Pio V, de 1570, a 14 de julho, 400 anos depois passou para o dia seguinte, dia 15.

Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) – Fonte: O São Paulo. In: https://osaopaulo.org.br/vaticano/principais-documentos-da-igreja-sobre-comunicacao/

A data da memória dos santos e santas da Igreja, na grande maioria, é a data de morte aqui na terra. Páscoa para o Reino definitivo e com São Boaventura não seria diferente.

Para implementação do novo calendário romano de 1970, previamente, a Igreja realizou profunda revisão hagiográfica da vida dos santos e santas e no caso de São Boaventura, resolveu alterar a data de sua memória de 14 para 15 de julho. Isso aconteceu porque ele morreu antes do alvorecer do dia 15 de junho de 1274 aos 57 anos de idade, durante o II Concílio de Lyon, o qual organizou e muito trabalhou. Foi assistido pelo próprio Papa Gregório X (1271-1276), que o fez cardeal da Igreja para o auxiliar, anos antes.
Já constava, desde o missal tridentino de São Pio V, de 1570, na hagiografia de São Boaventura, que sua morte se deu no dia 15 de julho, mas, a Igreja, pós Concílio de Trento (1545-1563), o concílio da contrarreforma, manteve a festa no dia 14 de julho.

Breve hagiografia de São Boaventura (1217-1274)


Independente da fé que o indivíduo professe em Canavieiras, cresceu escutando este nome: Boaventura. Originado do nome do santo, no passado, quase todas as famílias tinham um Boaventura. Era questão de honra, seja pela fé ou para conferir identidade ao menino recém-nascido de uma continuidade da tradição.

Ainda é muito comum achar “Boaventuras” Brasil afora, que tenha de terceiro ou quarto graus um parentesco com um canavieirense nato. Mas, o nosso São Boaventura, nasceu em Civita, atualmente distrito de Bagnoregio – perto de Viterbo, antiga Tuscia Romana, em 1217, e foi batizado com o nome de Giovanni di Fidanza.

De acordo com a tradição, ainda criança, obteve a boa ventura de ser curado de uma doença através da intercessão de São Francisco de Assis, morto pouco tempo antes, em 1226, e já muito popular.

A tradição indica que por causa desse episódio, seus pais passaram a chama-lo de Boaventura. Quando adolescente, se mudou para Paris a fim de concluir os estudos na Universidade de Paris. Assim que recebeu o grau de bacharel, foi lecionar em cursos privados, conforme a norma da época.

Enquanto professor, teve de tomar parte de discussões que dividiam a opinião de alguns doutores. Ingressou na Ordem Franciscana no noviciado, professou os votos e adotou de vez o nome de Boaventura, agora seu nome oficial de religioso.

Foi ordenado sacerdote e com muito desvelo, se dedicava à formação dos frades. É lembrado pela Ordem Franciscana e pela Igreja como grande filósofo e teólogo, também grande defensor da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Lutou muito para manter a unidade da Ordem, pois ela estava dividida por dissenções de muitos frades que propagava vários “Franciscos” de Assis e beiravam ao ridículo da fantasia e do fanatismo de um franciscanismo que não existia.

Prova de seu empenho na luta da unidade da Ordem, foi que em 1257, foi eleito ministro Geral da Ordem dos Frades Menores (OFM), por unanimidade, sendo o sétimo sucessor de São Francisco na direção da Ordem, cargo que ocupou até 1273, quando foi eleito pelo Papa Gregório X, Bispo de Albano e cardeal da Igreja.

Como já dito, faleceu aos 57 anos de idade, durante o II Concílio de Lyon, no dia 15 de julho de 1274. É considerando o segundo pai da Ordem Franciscana. Foi canonizado pelo Papa Xisto IV em 14 de abril de 1482, e, em 1588, foi proclamado Doutor da Igreja por Xisto V, que o concedeu o título de Doctor Seraphicus.

Velório de S. Boaventura, pintura de 1629, de autoria de Francisco Zurbarán

Afinal, 14 ou 15 de julho?

Em 1970, o Bispo de Ilhéus, D. Valfredo Bernardo Tepe, também franciscano, na aplicabilidade do novo calendário romano e da reforma litúrgica do Concílio Ecumênico Vaticano II, em toda a sua diocese, dentre elas, a Paróquia de São Boaventura do Poxim de Canavieiras, nunca se opôs à continuidade da festa de São Boaventura ser no dia 14 de julho, pois, a Igreja pós-conciliar do Vaticano II, preza pelo respeito das diferentes culturas e tradições locais. Diante desse pressuposto, não iria impor a troca da festa de 14 para 15 de julho, somente para cumprir à risca o novo calendário promulgado por São Paulo VI.

Mas Dom Tepe deixou a possibilidade da Paróquia de São Boaventura decidir posteriormente sobre a possibilidade de mudança. Após refletirem juntamente com a municipalidade canavieirense – já que deveria alterar também o feriado oficial de 14 para 15 de julho – o tema imediatamente foi rechaçado pela grande maioria dos membros do conselho paroquial e de vários vereadores, o que fez o padre e o prefeito, à época, encerrarem o caso, sendo que, alguns insatisfeitos, de vez em quando, levantavam a polêmica através do jornal da cidade.

Mas não tinha força de ressuscitar o assunto da mudança de data, pois, o motivo não era religioso de zelo pela festa do padroeiro, mas com motivações de disputa política.

Dia 14 de julho, para a Igreja no mundo todo, é o dia da memória de São Camilo de Lellis (1550-1614), religioso, também italiano, fundador da Ordem dos Ministros do Enfermos, mais conhecidos como padres e irmãos camilianos, que têm por missão a atuação na área da saúde.Em Canavieiras, temos sua imagem exposta na recepção do Hospital Régis Pacheco, entronizada lá, desde a bênção de inauguração do hospital em 1952.

Outro município brasileiro também tem São Boaventura por padroeiro. É Águas Formosas, no nordeste de Minas Gerais, com menos de 20 mil habitantes. Por lá, São Boaventura é festejado com feriado municipal no dia 15 de julho, pois, o município, criado em 1938 e a paróquia criada em 1978 pela diocese de Teófilo Otoni, são de formação e tradição mais recente. Não tem como comparar com o caso de Canavieiras.

Com o passar dos anos, a Paróquia de São Boaventura jamais aventou a possibilidade de trocar o 14 para o 15 julho por entender a tradição canavieirense edificada em torno do 14 de julho, que possui uma identidade muito forte no imaginário coletivo da população, reforçada pela certeza da fé e da tradição, das quais a Igreja é a primeira a proteger que o dia de São Boaventura é 14 de julho para Canavieiras, e, para o resto do mundo católico, dia 15. E viva São Boaventura!!

* Oslan Costa Ribeiro é mestrando do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG), vinculado à linha II – Cultura, poder e identidades. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7937879658171776. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1742-9669. É de família canavieirense, graduado e especialista em História pela UESC, e pesquisa sobre Canavieiras na área de História há 20 anos, com artigos científicos e capítulos de livros publicados sobre o tema. No segundo semestre de 2021, publicará pela Editora Editus (UESC), seu livro “Religião, transformação, conflitos e festas: a história da freguesia de São Boaventura do Poxim de Canavieiras”.

Compartilhe